Cultura

Livrarias e Cafés Históricos de Lisboa

Da Bertrand à Brasileira, os lugares onde a cidade lê desde o século XVIII

Redação Dazona

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Livrarias e Cafés Históricos de Lisboa

Lisboa tem uma relação antiga com o papel. Antes dos cafés de especialidade e dos espaços de cowork, a vida intelectual da cidade acontecia em livrarias e cafés com mármore nas mesas e empregados de colete. Muitos desses lugares ainda existem, ainda funcionam e ainda valem a pena. Alguns viraram paragens obrigatórias de excursão, outros mantêm a clientela de bairro de sempre. Este roteiro distingue uns dos outros, porque a diferença importa: há sítios para ver e sítios para ficar.

Bertrand: a mais antiga do mundo

A Livraria Bertrand da Rua Garrett, no Chiado, abriu no século XVIII e tem o reconhecimento do Guinness World Records como a livraria mais antiga do mundo em funcionamento. O edifício atual data da reconstrução pombalina, depois do terramoto de 1755, e as salas em enfiada, forradas de estantes, fazem dela um lugar onde apetece perder tempo.

Dois conselhos. Primeiro, vá além da primeira sala: a multidão concentra-se à entrada, e as salas do fundo, incluindo a dedicada a Aquilino Ribeiro, são bem mais calmas. Segundo, compre alguma coisa. A Bertrand carimba os livros com um selo que atesta a compra na livraria mais antiga do mundo, e é uma lembrança melhor do que qualquer íman de frigorífico.

Ler Devagar: livros numa fábrica

Na LX Factory, em Alcântara, a Ler Devagar ocupa o espaço de uma antiga tipografia. As estantes sobem vários pisos pela parede, a velha máquina de impressão continua lá dentro e uma bicicleta voadora suspensa do teto tornou-se uma das imagens mais fotografadas de Lisboa.

É uma livraria a sério, não um cenário: a seleção de arte, fotografia e edições independentes justifica a viagem. Ao fim de semana enche de visitantes da LX Factory, por isso, se quer folhear com calma, vá num dia de semana ao fim da tarde.

A Brasileira e o turista de bronze

A Brasileira, a poucos metros da Bertrand, abriu no início do século XX e é o café mais famoso do país. A fachada Arte Nova, o interior de madeira e espelhos e a estátua de bronze de Fernando Pessoa sentada na esplanada fazem dela um ponto de peregrinação permanente.

Sejamos francos: hoje, A Brasileira é sobretudo para ver. A esplanada vive de turistas a tirar fotografias com o Pessoa de bronze, e os preços na rua refletem isso. A jogada certa é entrar, beber a bica ao balcão como os lisboetas sempre fizeram, olhar bem o teto e a sala, e seguir caminho. Para sentar e ler durante uma hora, há melhores opções nesta lista.

Café Nicola e a Pastelaria Versailles

No Rossio, o Café Nicola carrega mais de dois séculos de história e a memória do poeta Bocage, que ali tinha mesa no século XVIII. O interior Art Déco merece a visita, e a esplanada sobre a praça é um bom posto de observação, com a ressalva habitual dos cafés do Rossio: paga-se a localização.

Mais a norte, na Avenida da República, a Pastelaria Versailles é outra coisa. Aberta desde os anos 20 do século passado, com lustres, espelhos e vitrinas de doçaria intermináveis, mantém clientela local de todas as idades. É das poucas casas desta lista onde se pode tomar um pequeno-almoço demorado sem sentir que está num postal. Chegue cedo ao fim de semana, porque a fila para as mesas forma-se depressa.

Martinho da Arcada: a mesa de Pessoa

Debaixo das arcadas da Praça do Comércio, o Martinho da Arcada é o café mais antigo de Lisboa, com origem no século XVIII. Foi aqui, e não na Brasileira, que Fernando Pessoa foi de facto cliente assíduo nos últimos anos de vida: a casa preserva a mesa do poeta, com fotografias e memorabilia.

Tem duas faces: o café com balcão, simples e acessível, e o restaurante, mais formal e mais caro. Para a experiência histórica sem grande despesa, fique pelo café e peça uma bica e um pastel de nata ao balcão.

Onde trabalhar e onde ver passar a cidade

Resumo prático para quem quer mais do que uma fotografia:

  • Para trabalhar ou ler horas seguidas: a Ler Devagar num dia de semana, ou a cafetaria de uma livraria generalista do Chiado. Os cafés históricos não são bons escritórios: mesas pequenas, rotação rápida e nem sempre há tomadas.
  • Para ver gente: a esplanada do Nicola sobre o Rossio, ou a da Brasileira se aceitar a multidão.
  • Para sentir a história sem pressa: o café do Martinho da Arcada a meio da tarde, fora das horas de almoço.
  • Para comprar livros: Bertrand para o clássico, Ler Devagar para arte e edições independentes.

Notas práticas

Todos estes lugares ficam em zonas centrais e bem servidas de transportes: o Chiado tem estação de metro à porta da Bertrand, o Rossio idem para o Nicola, e a LX Factory apanha-se de autocarro ou elétrico até Alcântara. Os horários variam, e os cafés históricos fecham mais cedo do que se esperaria; confirme no site oficial ou por telefone antes de organizar o dia à volta de um deles. Ao balcão paga-se sempre menos do que na mesa, e menos ainda do que na esplanada: é a regra antiga dos cafés portugueses, e nestes aplica-se a dobrar.


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