Perturbação em curso31Ver detalhes
Cultura

Festas de Lisboa: Santo António, marchas e arraiais de junho

Como viver as festas populares sem ficar preso à versão mais turística

Redação Dazona

·

·

5 min de leitura

Festas de Lisboa: Santo António, marchas e arraiais de junho

Junho em Lisboa cheira a sardinha assada, manjerico, carvão, cerveja no copo de plástico e calçada quente ao fim do dia. As Festas de Lisboa ocupam o mês inteiro, mas o coração popular está em Santo António, padroeiro informal da cidade, celebrado na noite de 12 para 13 de junho. É a altura em que bairros como Alfama, Mouraria, Castelo, Bica e Graça montam arraiais, fecham ruas e levam a festa para fora de casa.

Há uma versão turística das festas, feita de filas, ruas impossíveis e sardinhas sem graça. Mas também há uma versão mais interessante: bairros cheios, sim, mas ainda com vizinhos à janela, coletividades a cozinhar, música pimba, marchas ensaiadas durante meses e uma energia que Lisboa não tem noutra época do ano.

O que se celebra

Santo António nasceu em Lisboa, embora seja mais conhecido no mundo como Santo António de Pádua. A festa mistura devoção, calendário municipal e cultura popular. Há casamentos de Santo António, procissões, concertos, exposições e programação oficial, mas a imagem mais forte continua a ser a rua: mesas improvisadas, grelhadores, bandeirinhas, música alta e gente a circular entre bairros.

O manjerico, pequeno vaso de manjericão com quadra popular, é o símbolo fácil de levar para casa. A tradição diz que não se deve cheirar diretamente a planta, mas tocar nas folhas com a mão e cheirar depois. Verdade absoluta ou brincadeira repetida, faz parte do ritual.

As marchas populares

Na noite de 12 de junho, a Avenida da Liberdade recebe as marchas populares. Grupos de vários bairros desfilam com coreografias, figurinos, músicas e letras próprias, numa competição que mistura orgulho local e espetáculo televisivo. Para quem nunca viu, é uma boa porta de entrada para perceber como as festas são preparadas muito antes de junho.

Chegue cedo se quiser bom lugar. A avenida enche, a circulação fica lenta e sair no fim exige paciência. Se não gosta de multidões paradas, pode ver as marchas pela televisão e guardar a energia para os arraiais. Não há uma escolha mais autêntica do que a outra. São experiências diferentes.

Arraiais: Alfama, Mouraria e Castelo

Os arraiais mais conhecidos ficam nos bairros históricos. Alfama é o clássico, com ruas estreitas, escadinhas, fado a aparecer aqui e ali e muita pressão de visitantes. É bonito, mas pode tornar-se apertado ao ponto de deixar de ser divertido. Vá cedo, escolha ruas laterais e aceite que em certas zonas não se anda, avança-se devagar.

Na Mouraria, a festa costuma ter uma mistura forte de tradição lisboeta e diversidade do bairro. Há largos com música, comida de rua e uma escala por vezes mais respirável do que Alfama. A zona do Castelo também oferece bons arraiais, com a vantagem de ter miradouros por perto e percursos menos óbvios.

Se quiser fugir ao circuito mais cheio, experimente bairros como Madragoa, Bica, Graça ou Ajuda. A regra é simples: quanto mais famosa a rua no Instagram, maior a probabilidade de pagar mais por pior comida e ficar preso numa multidão.

Sardinha, caldo verde e bom senso

A sardinha assada é o prato das festas. Come-se no pão, no prato, de pé, sentada numa mesa de plástico ou encostado a uma parede. Junho costuma ser a época em que a sardinha melhora, mas a qualidade varia muito de banca para banca. Procure grelhadores com rotação, peixe a sair com frequência e clientela local. Evite menus demasiado perfeitos, com fotografia plastificada e preços escondidos.

Além da sardinha, há bifanas, caldo verde, chouriço assado, caracóis, imperiais e sangria. Beba água, leve dinheiro ou cartão, e não conte com casas de banho fáceis. Sapatos confortáveis são obrigatórios. As festas acontecem em calçada, escadas e ruas inclinadas.

Como aproveitar sem cair na armadilha

Vá com tempo e sem plano rígido. Escolha um bairro principal e deixe margem para sair se estiver demasiado cheio. Combine um ponto de encontro com o seu grupo, porque a rede móvel pode falhar nas zonas de maior concentração. Evite levar mochilas grandes. Respeite quem vive ali: portas, escadas e entradas de prédio não são lugares para sentar, urinar ou deixar lixo.

Para uma noite equilibrada, jante cedo, caminhe antes da enchente maior e termine num largo menos famoso. Se quiser fotografar, fotografe a rua, as luzes, os manjericos, mas tenha cuidado com pessoas a comer, trabalhar ou dançar em cima umas das outras.

As Festas de Lisboa não precisam de ser perfeitas para valerem a pena. Fazem barulho, sujam a cidade e cansam. Também mostram uma Lisboa comunitária, teimosa e muito viva. A melhor forma de as entender é participar com atenção: comer uma sardinha decente, ouvir uma marcha, subir uma rua devagar e lembrar que, por uma noite, a cidade troca a sala pela rua.


Voltar ao Magazine